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  • O pedido de desculpas, de Eve Ensler

     



    Olá, amigos leitores! Tudo bem com vocês?

    Hoje eu venho falar um pouco sobre O pedido de desculpas, livro de Eve Ensler e o primeiro livro da nossa parceria com a Editora Cultrix. 

    Este foi um livro que demorei a ler e demorei a fazer a resenha. Apesar de curto (apenas 128 páginas) e de uma leitura fluida, suas palavras fortes e cheias de dor e angústia, arrastam-nos lentamente pelas páginas. Não foi uma leitura fácil, confesso. Mas foi uma leitura mais que necessária. Vamos conhecer um pouco da história?

    Eve sofreu abuso sexual, físico e psicológico pelo pai na infância. Enquanto ele estava vivo não recebeu um pedido de desculpas. Cansada de esperar, ela resolveu escrever seu próprio pedido de desculpas, como se fosse seu pai. Por meio de um texto sucinto e revelador, em uma carta franca, cujo narrador é seu próprio algoz, a autora traz um olhar libertador sobre o tema do abuso feminino, seja ele de ordem sexual, moral ou material.

    Nesse texto, catártico e libertador, conhecemos um pouco da personalidade do pai, sua adoração pela filha e todos os abusos físicos e psicológicos cometidos por ele, desde muito cedo, num relato comovente que ora nos deixa com muita raiva e ora nos deixa com muita tristeza. Seria difícil descrever com palavras todos os sentimentos que me atravessaram durante esta leitura.

    Eve apanhava várias vezes por simplesmente não se submeter ao que o pai desejava. Ao longo da narrativa podemos ver a evolução dela e perceber como ela entendeu que era seu desespero que alimentava a violência dele. Como Eve escreveu a carta como se fosse seu pai, a visão que temos dela em alguns momentos é deturpada. Entretanto, “ele” não tenta se justificar sobre os abusos que cometeu algo positivo diante de todo o cenário. Foram muitos momentos difíceis e ainda assim, ela conseguiu uma força interna invejável, o que nem sempre acontece com todas as mulheres que passam por isso.

    Apesar de tudo isso, a escrita vem aqui como uma forma de ressignificar as dores e a violência, mostrando que nada disso é capaz de nos definir, de nos calar ou apagar. Eve faz uma reconstrução dessa infância e ressurge e se reinventa através da escrita. As cicatrizes ficam, é claro, mas há um apaziguamento da dor pela renovação de si mesma através da reescrita de sua própria história.

    Escritora best-seller publicada em 48 idiomas e dramaturga com peças interpretadas em mais de 140 países, Eve Ensler foi escolhida uma das “150 Mulheres que Mudaram o Mundo”, pela revista norte-americana Newsweek e uma das “100 Mulheres Mais Influentes”, segundo o jornal britânico The Guardian. Percorre o mundo lutando no ativismo contra a violência de gênero e  insere mais um capítulo de sua luta  com este livro.

    É uma história que precisa ser contada, pois somente assim outras mulheres, vítimas de quaisquer tipos de violência, podem também abrir a boca e trazer nas palavras a chave de sua libertação.


     

     

    Agente Charlotte, de Helena Grillo Miranda

                                      

    Quem me conhece sabe que o gênero policial é um dos meus gêneros favoritos.  Além disso, cada vez tenho buscado ler mais autores nacionais e conhecer um pouco mais de nossa produção, que muitas vezes é pouco lida, dando mais visibilidade a autores de fora que de nosso próprio país. 

    Por isso fiquei muito animada ao conhecer a narrativa de Helena Grillo Miranda, com a sua “Agente Charlotte”. Publicado pela Editora Viseu, este livro traz um romance policial com aventura, romance e uma protagonista forte, mas humana, que nos apresenta sua história pessoal, seus conflitos e sua sede de justiça no combate ao crime.  Vamos conhecer um pouco desta história?

    Charlotte encontra a orfandade muito cedo e por conta disso, tanto ela como os seus irmãos, Layla e Mateus, são criados pela sua avó no Rio de Janeiro. Charlotte se torna uma agente federal e é uma excelente policial no combate ao crime. Focada em seus objetivos e muito comprometida com o que faz.   Como toda policial, a sua vida é sem descanso, sem hora para nada e uma montanha russa de acontecimentos. Com isso sobrava pouco ou quase nenhum tempo para a vida pessoal.

     No início da narrativa, nossa protagonista é colocada em “férias forçadas”, pois está em regime de trabalho contínuo há dois anos.  Com a possibilidade de um erro por estafa ou fadiga, ela decide ir visitar seus tios em Salvador, cidade onde nasceu.  Apesar da tentativa de paz e sossego as “emoções” de uma vida de policial continuam a acompanhá-la mesmo nas férias. De volta para casa e para a sua vida normal, ela recebe uma nova missão que pode trazer surpresas e mudanças...inclusive para a sua vida pessoal.

    “Agente Charlotte” é uma história leve e fluida e de rápida leitura. A linguagem de Helena traz proximidade para seus personagens, que são ricos e multifacetados. Apesar de ser uma narrativa curta, a autora traz reflexões importantes sobre o ser mulher numa profissão encabeçada por homens, sobre o preconceito, sobre as relações familiares e amorosas e principalmente sobre a fé. A fé aqui aparece como um elemento importante e decisivo para a vida das pessoas e a possibilidade de viver conforme a sua fé e seus valores, apesar de todas as marés que nos fazem ir de encontro a nós mesmos.

    Acompanhamos o crescimento de Charlotte e suas descobertas e aventuras, numa narrativa que reúne romance, aventura, drama e um pouco de humor. É uma narrativa curta, leve e envolvente, que você lê de forma rápida e que te deixa com aquele gostinho de quero mais. Recomendo!

     E se você quiser garantir ainda hoje o seu e-book, corre lá no site da Amazon, que ele está por apenas R$ 0,99 centavos. Corre que é só até hoje.


    O livro também está disponível pelo Kindle Unlimited. 

     

    Sobre a autora:

     


    Helena Grillo Miranda nasceu em 1997 no Rio de Janeiro com uma doença no coração. Os pais João Luiz Ferreira de Miranda e Maria Alice Grillo Miranda ficaram desesperados, mas encontraram em Deus a cura. Incentivada pelo pai na prática do esporte, Helena se tornou faixa preta de judô aos 18 anos, e hoje é professora no Projeto Social Força Jovem Judô. Formou-se em Comunicação Social – Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida em 2018, mesmo ano em que publicou seu primeiro livro “A Menina e a Ditadura”. E não parou por aí, em 2019, no mesmo ano em que casou com Hugo Yan Mendonça Gonçalves também publicou o seu segundo livro “Agente Charlotte”. Hoje, está a caminho de publicar sua terceira obra "Honra Pirata" pela Editora Coerência.

    Redes da autora:

     https://www.instagram.com/autorahelenagrillo/?hl=pt-br

    https://www.instagram.com/grupoeditorialcoerencia/?hl=pt-br

    https://www.skoob.com.br/usuario/6948170-helena-grillo

    Aída, um conto de liberdade, de Mariana Ribeiro

     


    Resistência. Esta é a palavra que ecoa em nossa mente após a leitura do conto Aída, de Mariana Ribeiro. A narrativa histórica trazida pela autora nos apresenta uma protagonista negra, forte, determinada e muito inteligente que não se dobrou ao status quo de sua época – muito pelo contrário – lutou contra as opressões e dispôs de todas as suas habilidades para vencê-las.

    A história acontece no Brasil Imperial, no ano de 1850. O Brasil é um país escravagista e os negros livres, como Aída, ainda corriam o risco de serem novamente escravizados. Aos 12 anos ela passa por esta cruel experiência e é levada de Salvador para o Vale do Paraíba, onde vai trabalhar como mucama da esposa do Comendador Fernão de Oliveira Gusmão. Apesar de sua situação de escravizada, Aída está na casa grande e não na senzala e esta posição lhe confere alguns “privilégios” e desta forma ela tem acesso a escrita, leitura, música dentre outras aprendizagens que nesta época só eram acessíveis às pessoas brancas.

    Ainda assim, Aída tinha total consciência de quem ela era e da necessidade de mudar a sua situação, bem como a de seus companheiros escravizados que ali viviam.  Capturada após uma tentativa de fuga, Aída retorna à fazenda e se organiza para liderar um levante e partir na luta pela libertação de negros de outras fazendas e a posterior formação de um quilombo. Mas ocorrem várias situações não planejadas e a fuga acaba tomando outros rumos...

    Apesar de ser uma história curta, Aída traz em seu bojo diversas discussões pertinentes e necessárias que, apesar de estarem em um cenário histórico do Brasil Império, são extremamente atuais. As relações estabelecidas entre Aída e sua “sinhá” Isabel são um destaque que achei deveras importante, pois ressalta as diversas formas de opressão sofridas pela mulher e a necessidade da sororidade entre elas.

    “Por mais que um abismo social e econômico nos separe, por mais que nos distingam pela cor da nossa pele, ainda assim, nós somos mulheres. Temos em comum o fato de sermos impedidas de viver livremente, cada uma à sua maneira”.    

    Outro tema trazido pelo conto é a questão do lugar de fala. Aída criticava os abolicionistas brancos que falavam pelos negros, mas que não tinham noção das coisas que eles passavam, pois não estavam ali e nem tinham vontade de estar. Uma crítica pungente ao conhecido papel do “branco salvador” que tantas e tantas vezes vimos nas mais diversas histórias trazidas a nós sobre a escravidão e que sempre a contavam sobre uma única perspectiva.

    “...mas eles desconhecem as nossas dores e isso deslegitima toda a luta dos nossos antepassados, a nossa própria luta, compreende?”.

    Para mim, ler Aída foi a possibilidade de ter acesso a uma história bem diferente das que já havia lido sobre a escravidão. Uma narrativa que traz pessoas ativas, guerreiras, que lutam, resistem, se organizam, anseiam pela liberdade. Uma história de resistências, acima de tudo. Aliado a isso, a autora traz uma narrativa histórica bem construída, com uma pesquisa notável e ricas notas de rodapé que contextualizam o vocabulário e a cultura da época. Aída é uma marca do protagonismo da mulher negra e uma história de representatividade e força. Recomendo!  

    Aída esta disponível como e-book e você pode adquiri-lo AQUI. Ele também está disponível de forma gratuita para os assinantes do Kindle Unlimited.  

    Sobre a autora: 

    Mariana Ribeiro é soteropolitana e escreve desde a adolescência, quando criava histórias de próprio punho em cadernos pequenos. Não sabe ainda ao certo de onde vem a sua inspiração, mas as ideias costumam surgir em sua mente quando ela menos espera em um insight rápido e profundo. O seu gênero literário preferido é o Romance Histórico, pois tem certeza de que nasceu no século errado. Relembrar os fatos mais marcantes do passado sempre lhe desperta um sentimento nostálgico de saudade.


    Redes da autora: 

    Central da Autora  / Twitter / Instagram / Facebook

    A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca – William Shakespeare, trad. De Leonardo Afonso.

     


    Shakespeare dispensa comentários e as suas obras são um marco na história da Literatura. Hamlet, em especial, é considerada como uma das peças mais influentes e poderosas da língua inglesa. Escrita entre os anos de 1599 e 1601 por William Shakespeare, Hamlet é considerada uma tragédia.

    A peça se passa na Dinamarca, e conta a história do Príncipe Hamlet que tem como objetivo vingar a morte do rei Hamlet, seu pai, que foi executado pelo próprio irmão, Cláudio. Depois de envenená-lo, Cláudio casou-se com a rainha e se tornou rei daquele país.

    Hamlet traça um mapa do curso de vida na loucura fingida ou na loucura real, explorando ainda profundamente temas como corrupção, traição, incesto, vingança e moralidade. Uma obra que fala sobre o ser humano e suas mais nobres ou detestáveis formas de ser. Essa é a peça mais longa de Shakespeare e, provavelmente, a que lhe deu mais trabalho.

    Você pode ainda não ter lido o livro, apesar de um clássico, mas com certeza já ouviu as diversas citações desta obra que permeiam o vocabulário das pessoas, tais como: “Ser ou não ser, eis a questão” ou “Há algo podre no reino da Dinamarca”.

    Eu já havia lido Hamlet há algum tempo e fazer essa releitura foi uma experiência prazerosa. Um livro nunca é o mesmo a cada vez que nós o lemos, principalmente quando se trata de uma nova edição e tradução. Esses atributos podem mudar e/ou ampliar a sua experiência da leitura e assim foi com esta nova tradução do LeornardoAfonso, com edição da Chiado Editora.

    A inserção da obra se dá pela introdução, onde há uma breve, mas precisa apresentação do autor e da obra, inserindo-o no contexto do teatro elisabetano. A tradução apresentada por Leonardo é toda em prosa, com as exceções dos poemas e canções. Essa escolha busca um olhar atento para o conteúdo da obra e seu significado, deixando assim de prender drasticamente à forma para absorver melhor e refletir a história em si.

    A escolha vocabular também mostra um equilíbrio da tradução, não deixando de situar a obra em uma esfera conservadora, mas trazendo um Shakespeare mais próximo e mais compreensível também, o que dá leveza tanto para os leitores incipientes como para os leitores mais conhecedores do autor. Por fim, as notas de rodapé, apresentadas ao longo da obra, contextualizam a mesma, explicitando o contexto e trazendo à luz as muitas referências feitas pelo autor.

    Reler Shakespeare é sempre um prazer, mas a tradução de Leonardo Afonso costura como se fosse a quatro mãos esta narrativa e amplia a obra, trazendo para o leitor uma leitura confortável e prazerosa. Acima de tudo, aproxima a leitura clássica do leitor comum, desmistificando o título de inacessível e popularizando obras importantes da Literatura para todos os tipos de leitores. Recomendo!

    *livro gentilmente cedido em parceria com a Oasys Cultural   

    Prana, Jacqueline Farid

     

    Fonte: Facebook da autora 

    Prana foi um livro extenso, um livro de poucas páginas, mas de muitas letras, como costumo chamar. Aquele tipo de livro que não se esgota em sua leitura e fica ainda com suas palavras reverberando por dentro da gente. Pensamentos, ideias, cores, sentires. A autora, Jacqueline Farid, faz uma costura muito bem enredada entre a ficção e a realidade. Nos apresenta a Indía, e suas histórias ao mesmo tempo em que tece a sua própria história com as cores da Índia.

    Sinopse: Prana viaja de Ouro Preto, sua terra natal, até a Índia, onde empreende uma rota sagrada em busca do pai. A jornada da protagonista tem início na futurista Dubai e passa por Nova Delhi, pelas maravilhas do Taj Mahal, pelos templos de Bodhgaya, pela yoga de Rishikesh e pelos crematórios de Varanasi, num percurso de descobertas que inclui sexo e repulsa, encontro e separação, medo e coragem, afeto e decepção, suspense e clímax, vida e morte.

    Prana é a nossa protagonista, moradora de Ouro Preto, com um nome diferente que ecoa o tempo todo em sua realidade, confrontando-lhe com a sua real pertença. O destino a leva para perto de seu pai e um dia ele vai embora, numa suposta viagem de negócios e depois ninguém mais sabe o que houve com ele. Telefone que não responde, falta de notícias...até que chega uma carta.  

    Esta carta da Índia está endereçada a Prana. Decidida a entender o que houve com seu pai e buscar outras respostas a muitas perguntas, ela se lança numa viagem que é ao mesmo tempo uma viagem a si mesma e às suas origens. Até onde o lugar de onde viemos pode trazer perguntas para decifrar quem somos?

    A resposta vem numa colorida, fascinante e muito bem descrita viagem a Índia, passando por outros locais com os Emirados Árabes. Vamos com Prana descobrindo a cultura, os cheiros, as cores, os sabores e mistérios. Vamos recuando entre o passado e o presente, lançando olhares sobre o futuro, repensando as rotas de quem somos.

    O livro tem capítulos curtos, que ora flertam com os contos e ora permanecem como tessitura de um romance. Rico em descrições e narrado em terceira pessoa, sem a presença de diálogos e com uma narrativa fluida que cativa e que leva o leitor junto com ela.  A qualidade gráfica também merece atenção, com uma folha de guarda muito bonita e papel pólen de excelente qualidade que também trazem conforto físico à experiência da leitura.

    *Este livro foi cedido gentilmente pela Oasys Cultural


    Diários Índios, Darcy Ribeiro

     

    Sempre gostei de ler diários. Acho que este é um tipo de leitura que promove uma aproximação muito grande com quem escreve e com o cotidiano que é ali retratado. E não foi diferente com Diários Índios, de Darcy Ribeiro. Apesar de não ser um diário qualquer e de sua leitura ser densa e muito rica em informações, é também uma leitura de aproximações e de vivências, com uma história dentro da outra, onde os relatos de Darcy se fundem aos relatos da diversidade e da cultura do povo Urubus-Kaapor.

    O livro apresenta os registros, escritos e visuais, das duas expedições à terra dos Urubu-Kaapor no Pará e no Maranhão: em 1949 e 1950, nas áreas do Rio Gurupi e do Rio Pindaré. A primeira publicação dos Diários ocorreu em 1996 e agora, 24 anos depois, a Global Editora traz essa segunda edição.

    Os diários são escritos em forma de carta, onde o autor se reporta à sua mulher, Berta, e dá contornos leves de um discurso amoroso à obra, onde são compartilhados a ternura, a amizade e a colaboração até o fim da vida, entre os dois. (Berta também era antropóloga).

    "Então, no tempo deste diário, éramos jovens ou apenas maduros. Envelhecemos depois, uma pena. Saltamos já a barreira dos setenta. Ao fim, fomos atingidos por dois tiros: câncer. Estamos ambos lutando, cada qual contra o seu. O de Berta a pegou na cabeça, justamente na área da fala. Não pôde ser extirpado, porque ela perderia a memória e o ser. Viveria um vegetal em coma perpétuo. Mas aguenta bem. Voltamos até a namorar, depois de vinte anos de separação. Eu a beijo na boca e prometo casar de novo com ela.”

    Darcy com os índios Urubus-Kaapor

    Neles, ele descreve de forma bem simples e coloquial, longe de um rigor antropológico, detalhes da cultura Kaapor, como por exemplo: suas genealogias, rituais, mitologias, culinária, vestimentas, música, organização social e a vida sexual.  Tudo também ricamente ilustrado com fotos e desenhos. É uma escrita detalhada, cuidadosa e com muita delicadeza.

    Fiquei encantada com a importância das genealogias e da ancestralidade para o povo Kaapor, e da capacidade de memória, da preservação da tradição oral - a riqueza de passar a sua história de geração a geração, aprendida desde muito cedo.  Há registros de genealogias que recuam a 1800, onde índios citam mais de mil antepassados, com riquezas de detalhes.

    Infelizmente, não é apenas o registro da beleza e da rica cultura que atravessam os relatos trazidos por Darcy Ribeiro. Aparecem as manchas deixadas pelo contato com o homem branco, o furor capitalista, a visão e a descrição da população pobre, negra ou mestiça, muitas vezes, que é vizinha dos índios. Há também o registro das doenças, como o sarampo, que estava na época, matando a população Kaapor e o esforço de Darcy para medicar e salvar os índios em sua primeira viagem.

    A leitura de Diários Índios é bela e muito rica e fica muito difícil condensá-la nas poucas linhas de uma resenha. São 600 páginas de história e cultura que apesar de terem sido publicadas há algumas décadas tem o frescor da atualidade, pois permitem o encontro com uma realidade distante da nossa, mas tão próxima, dialogando com a nossa ancestralidade e com nossas raízes. Uma leitura essencial.

     *Livro gentilmente cedido em parceria pela Global Editora 

    O sol vinha descalço, Eduardo Rosal



    Nestes tempos tão difíceis e secos, de aridez de emoções e onde o silêncio não é mais um alento, a poesia tem sido, como dizia Quintana: “um gole d’agua bebido no escuro”. Poesia é o meu gênero preferido e receber o livro de Eduardo Rosal – O sol vinha descalço – foi um presente. Gostei tanto, que li e reli e fiquei com ele por uns dias, entre um poema e outro, entre páginas, com esses poemas me abraçando por dentro. Deixando que este sol viesse e me deixasse descalça também.


    "O sol vinha descalço" é o livro de estreia de Eduardo Rosal e foi vencedor do Prêmio Maraã de Poesia 2015. A poesia de Eduardo é leve e sonora. Palavra e silêncio caminham juntos, ao mesmo tempo em que rompem paradigmas e modelos, num voo livre de versos e de estruturas.

    Seus temas permeiam a natureza, a renovação, o amor, as sensações do corpo e da alma. As palavras escolhidas pelo poeta acarinham-nos como se estivéssemos vendo uma linda paisagem. É grande e potente a sua força imagética: “A memória é uma ilha/cercada de futuros”. Sol, sombra, fumaça, são invólucros para o exercício de rememoração, além do confronto com a divindade que nos marca com a morte: “A terra na mão/o menino brinca/gerações/e gerações/o silêncio/sabe de cor//Terra—/memória/que não esqueço/de apertar”.

    Há suavidade em sua escrita, mas também há a segurança de quem modela e alinha as palavras, que esculpe e talha. “Há um deus que/me persegue/com a morte no calcanhar/numa esquina qualquer/desiste/sem curvar a espinha/ao medo/me deixa passar/cede minha vez/a outro deus/ (ou me ama?)”.

    O livro está dividido em quatro partes: Da costela do afeto, Caroço do Sol, Centauro e As Corujas de Minerva.  Nestas, vamos sendo descalçados por vários sóis diferentes, que nos revelam a força das coisas, a melancolia, o tempo, a luz e a escuridão. É um livro para sentir, muito mais que ler, para aquecer dias e noites, com o calor e a luz da poesia.



    Humano

    Tenho tido tão pouco ódio
    que chego a ter medo
    de não estar sendo
    o mais humano que posso.


    Sobre o autor:

    Eduardo Rosal (Rio de Janeiro, 1986) é poeta, ensaísta professor, artista plástico e tradutor. Mestre e Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com período de doutorado sanduíche na Université Nice Sophia Antipolis (UNS, França). "O sol vinha descalço" é seu livro de estreia e foi vencedor do Prêmio Maraã de Poesia (2015).

    Este livro foi gentilmente cedido em parceria pela Oasys Cultural

    Girassóis estendidos na chuva, Louise Queiroz


    Fico pensando por que demorei tanto tempo para escrever esta resenha. Tenho uma dificuldade grande em escrever sobre as coisas que me fazem bem, que gosto muito. Acredito que pelo fato de ficar encharcada delas e não ter o discernimento necessário para expor todos os motivos pelos quais estas mesmas coisas me afetaram tanto. E assim foi com a poesia de Louise Queiroz.

    Descobri o livro por acaso, numa banca da editora Paralelo 13S, uma editora baiana, encabeçada por uma mulher, num evento literário onde eu estava. Vi que era poesia e comprei, encantada apenas pela ideia dos girassóis estendidos. Logo depois eu descobri que haveria um clube de leitura em minha cidade e ...o livro da Louise seria discutido.

    Li o livro em doses curtas de encantamento e suspiros. Louise tem uma maestria em trabalhar com as palavras, suas formas e sons, seus significados e silêncios. Seus poemas nos levam a lugares distantes dentro e fora de nós. Há encontros com a natureza e ancestralidade, com o sagrado, com as dores e as alegrias trazidas pelos muitos sentimentos que nos habitam e pela força da palavra, que dita ou silenciada, sempre traz algo que serpenteia por dentro da gente.

    Nesse ritmo, entre sons do ancestral e da natureza, da terra-corpo e da memória, a autora costura as palavras com os silêncios. Como ela mesmo nos diz: “Estar em silêncio é fazer um movimento de escuta, deixando ecoar internamente todas a vozes - as ancestrais e as nossas – e, a partir daí dar corpo e fluidez à palavra.”

    O clube de leitura Passos entre Linhas, organizado pela maravilhosa Lorena, foi um bônus da leitura. Louise estava lá, com sua voz mansa e suave de pessoa tímida, conversando sobre o seu processo de escrita, seus sentires, suas memórias e vivências. O livro se estendeu maior ainda após esta partilha. Vim para casa com o coração quente e aconchegado nessa coisa boa que é a poesia.

    As palavras de Louise sempre me acompanham por agora. Vez por outra, adoço a vida e o dia com um poema que leio ao acaso, que leio sem querer ou que leio intencionalmente. As palavras continuam vivas e os silêncios mais ainda. E me remodelo e me encontro com o que nos une e nos transforma: a terra, a mulher, a poesia, a palavra.

    Pós Memória

    Meu corpo
    Geme de uma dor antiga

    Tem bem mais de vinte e cinco anos
    Cada cicatriz morta ou rígida.

    (onde estala e expande
    Todas aquelas vozes esquecidas)

    Meu silêncio
    Matura o que não é cautela, mas medo
    Desse lugar onde nunca e sempre estive.

    Sobre a autora: 


    Mulher negra e lésbica, estudante de Letras na Universidade Federal da Bahia, nascida e criada em Salvador. Em 2016 publicou pela primeira vez no livro Enegrescência – Coletânea poética e no mesmo ano participou do Cadernos Negros 39 – poemas afro-brasileiros.
    instagram da autora: https://www.instagram.com/_dasaguas/
    contatolouisequeiroz1@gmail.com
    Para adquirir o livro: www.livrariabotocorderosa.com/loja

    Maratona Literária de Carnaval: Segura o Livro - Ano III


    Olá, amigos leitores! Tudo bem com vocês?

    Como estão de leituras? Um dos grandes vilões que diminuem nosso ritmo e quantidade de leituras é o tempo. Sendo assim, sempre que aparece um feriadão é uma ótima oportunidade para ler mais.  E para impulsionar essas leituras é que existem as maratonas literárias. Este ano eu irei participar da Maratona Literária Segura o Livro - Ano III. Esta maratona é organizada pela Ana Lígia, do canal Vagando entre estantes e da Tailany, do canal A Taylane leu. E acontece no período de 21  a 26 de fevereiro.  Para participar é muito simples, você precisa:

    - Preencher o formulário de inscrição: https://forms.gle/uruUsJmYRUsSNZ5t7
    - Escolher no mínimo 3 desafios de leitura nas categorias:
    •  Romance contemporâneo nacional
    • Biografia
    • Autor(a) negro(a)
    • Livro de contos de autora mulher
    • História em Quadrinhos
    • Livro de poesia

    - Se inscrever nos canais participantes 

    O melhor de tudo isso é que participando da maratona você está concorrendo a um cupom de 100 reais em livros na Amazon! Eu já estou participando e as minhas escolhas foram:

    - Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis.
    - Poemas, Wislawa Szymborska
    - Gabyanna negra e gorda, Gabriela Rocha
    - O enigma Orides, Gustavo de Castro
    - Rosalie Lightning - Memórias Gráficas, Tom Hart. 

    E vocês? Estão lendo mais neste carnaval ou estão pulando por ai? Deixem suas respostas nos comentários. Beijos a todos e Boas Leituras! 

    O Silêncio dos Livros, Fausto Luciano Panicacci - Leitura Coletiva




    Olá, amigos leitores! Tudo bem com vocês?

    Venho convidar vocês para uma leitura coletiva de um livro muito interessante: O Silêncio do Livros. Descobri o autor, Fausto Luciano Panicacci, e a obra pela internet e confesso que a premissa me chamou bastante atenção. Quando surgiu a possibilidade de participar da leitura coletiva eu não hesitei e para a minha alegria, fui selecionada. Primeiro vamos conhecer um pouco da obra e depois eu vou explicar como funciona. 

    Sinopse: Numa época em que os livros são proibidos, o misterioso Santiago Pena acaba de chegar a Portugal, onde conhecerá Alice, menina desprezada pelos pais. O encontro de um antigo caderno trará questões intrigantes. Que relação haveria entre um jovem acusado de crime que alega não ter cometido, suntuosos projetos arquitetônicos e a descoberta de uma biblioteca abandonada? Por qual razão alguém usaria o lema festina lente (“apressa-te lentamente”)? E por que o estrangeiro Santiago parece despertar nos familiares de Alice perigosos anseios? Suspense e aventura misturam-se a profundas reflexões sobre os paradoxos da condição humana nesta arrebatadora história que trata de amizade, loucura, amor e perda da inocência. À medida que se alterna entre a perspectiva de um homem reservado e a de uma garota curiosa, a narrativa surpreende pela multiplicidade de significados. Dialogando com clássicos da Literatura universal, O Silêncio dos Livros indaga qual seria o destino de uma sociedade que, fascinada pelos avanços tecnológicos, abolisse os livros. E lança um desafio aos que teimam em proclamar, sombriamente, a morte de um dos maiores símbolos da Civilização.

    O livro está disponível para compra em todas as livrarias físicas e virtuais do Brasil e a nova edição estará disponível para download gratuito na Amazon nos dias 03 e 04 de fevereiro

     E este será o cronograma da leitura: 

    Semana 1: de 03/02 a 09/02 – Leitura até a página 94
    Semana 2: de 10/02 a 16/02 – Leitura até a página 186
    Semana 3: de 17/09 a 20/02 – Leitura até a página 255

    E não termina ai! Sortearemos um exemplar do livro durante a Leitura Coletiva para os nossos leitores. Logo, logo saem as regras e a chamada do sorteio. Fiquem ligados! Enquanto isso, conheçam um pouco mais do autor, Fausto Luciano Panicacci: 



    Fausto Luciano Panicacci é escritor com estudos em Fotografia, História do Cinema e História da Arte. Autor de O silêncio dos livros (romance), Naufrágios (coletânea de contos e poemas) e de obra jurídica. Integra os grupos literários O que restou e Library. Doutor em Ciências Jurídicas pela Universidade do Minho (Portugal). Formado em Direito pelo Largo São Francisco (USP). Promotor de Justiça. Foi professor de pós-graduação no GVLaw da FGV/SP.
    Site do autor: https://faustopanicacci.com.br/
               

    Revista Continente lança podcast



    Estreia de Trópicos marca os 20 anos da publicação da Companhia Editora de Pernambuco

    A Revista Continente, editada pela Cepe, lança seu podcast Trópicos, nesta quarta-feira, 29 de janeiro. O programa, que será quinzenal, faz parte da celebração dos 20 anos da publicação, completados este mês. “A ideia é que a programação traga formatos diversos, com comentários, debates, entrevistas, histórias... Queremos experimentar de tudo”, diz a editora-assistente da Revista, Mariana Oliveira. “O podcast é mais uma ferramenta para oferecer conteúdo de qualidade, com a mesma linha editorial da revista”, completa a editora da Continente on-line e das redes sociais Olívia Mindêlo.

    Os programas terão em média 40 minutos e estarão disponíveis através das principais plataformas de streaming de áudio - Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Castbox, Breaker, Pocket casts, Radio public e Stitcher. O Trópicos piloto discute o jornalismo cultural e a trajetória da própria revista nesses 20 anos, com toda a equipe de conteúdo: além de Mariana e Olívia, participam a editora Adriana Dória, e as repórteres especiais Luciana Veras e Débora Nascimento.  

    Há ainda depoimentos de jornalistas, artistas e formadores de opinião locais, como o cineasta Lírio Ferreira, o músico e jornalista Marco Polo, a jornalista Michelle Assumpção, e o produtor Roger de Renor que estiveram presentes na festa de lançamento do livro 30 entrevistas da Revista Continente, em novembro do ano passado. 

    A segunda edição de Trópicos sairá extraordinariamente no dia 5 de fevereiro por causa do Oscar. A proposta é comentar os filmes indicados e analisar o que significa a indicação do longa brasileiro Democracia em Vertigem à categoria de Melhor Documentário. “Comentamos também a própria relevância das discussões em torno do Oscar, que mexe com a cultura pop, é um catalisador de mercado”, revela Luciana Veras, que comanda esta edição ao lado de Débora Nascimento. “Também falaremos da ausência de Bacurau (Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) na disputa”, complementa Luciana. 

    Chamamento ao povo brasileiro, Carlos Marighella


    Chamamento ao povo brasileiro
    Carlos Marighella
    Organização de Vladimir Safatle
    Coleção Explosante
    Ubu Editora


    Reunião de ensaios, cartas, manifesto e poemas de Carlos Marighella, incluindo textos que só circularam clandestinamente, com nova edição após muitos anos fora de catálogo. Militante comunista desde a juventude, deputado federal constituinte e, depois de romper com o PCB, fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar – a Ação Libertadora Nacional, Marighella já foi considerado o "inimigo número um" do regime. 

    A ALN chegou a participar de assaltos a bancos, carros-fortes e trem-pagador, e do famoso sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, ainda que seu líder não soubesse da operação. Seus métodos fizeram com que Marighella se tornasse uma das figuras mais controversas da história do Brasil.

    O volume inclui o livro integral Por que resisti à prisão (1965); textos de análise política do país e a ruptura com o PCB; e escritos sobre a luta armada, incluindo Frente a frente com a polícia e Cartas de HavanaAlguns dos poemas e sátiras de Marighella podem ser lidos ao longo do livro.

    Veja também o filme




    Alvo de muitas controvérsias e esperado desde o ano passado, finalmente foi anunciada a data de estreia para o filme Marighella, dirigido pelo ator Wagner Moura. Inspirado na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães e lançada em 2012, o filme aborda os últimos 5 anos de vida de Carlos Marighella, escritor, político e guerrilheiro, de 1964 até sua violenta morte em uma emboscada, em 1969. O filme foi apresentado em Berlim, em fevereiro do ano passado, além de ter sido exibido em festivais menores, como em Goa, na Índia, e Bari, na Itália.

    A data estabelecida inicialmente para o lançamento era 20 de novembro. Dois meses antes, no entanto, a produtora O2 Filmes cancelou a estreia no Brasil alegando que “não conseguiram cumprir a tempo trâmites exigidos pela Ancine [Agência Nacional do Cinema]”.“Os produtores haviam escolhido o mês de novembro, que marca os 50 anos de morte de Carlos Marighella, e o dia 20, da Consciência Negra, para a estreia. No entanto, a O2 Filmes não conseguiu cumprir a tempo todos os trâmites exigidos pela Ancine”, diz comunicado da empresa.

    Entre os integrantes do elenco, estão o cantor Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, e os atores Bruno Gagliasso, Humberto Carrão e a atriz Adriana Esteves. Confira o trailer: 


    Desafio Literário 2020 - Café com Gláucia e Conversa de Livro



    Olá, amigos leitores! Tudo bem com vocês, espero que sim. Já começamos a tirar as teias de aranha lá no instagram e iremos fazer o mesmo aqui no blog.  O Conversa de Livro, em parceria com o Café com Gláucia, lança o Desafio Literário 2020 e convida todos os seguidores/leitores a participarem junto conosco.

    Um desafio literário é uma forma de incentivar a leitura, de modo geral, e também um motivo para lermos títulos que não leríamos normalmente.

    Então, estamos propondo um tema ou autoria por mês para ser lido e compartilhado conosco. Sugerimos que escolham com antecedência os títulos que vocês pretendem ler e que se encaixem nos temas ou autores definidos para que consigam cumprir as metas de leitura ao longo do ano. 

    Ao final de cada leitura, os participantes devem postar uma foto do livro e um breve comentário sobre ele no Facebook ou Instagram, sempre marcando os perfis @cafecomglaucia e @conversadelivro e a hastag #desafioliterario2020 

    Então, mãos à obra e façam suas escolhas!
    Esperamos que 2020 seja repleto de boas leituras!
    Qualquer dúvida ou sugestão, é só enviar mensagem pelas nossas redes ou deixar um comentário neste post. Abaixo eu conto para vocês um pouco das minhas escolhas para este desafio.

    Janeiro:  Nua e Outros Poemas, Dayane Tosta
    Fevereiro: 18 crônicas e mais algumas, Maria Rita Kehl
    Março: O sol também é uma estrela,Nicola Yoon
    Abril: Poesias nunca publicadas, de Caio Fernando Abreu
    Maio: Bruxa Akata, de Nnedi Okorafor
    Junho: Amiga de Juventude, Alice Munro
    Julho: Intrusos, Adrian Tomine
    Agosto: Madrugada de Farpas, Paulo Venturelli
    Setembro: Despertar, Octavia Butler.
    Outubro: Palmares de Zumbi, Leonardo Chalub
    Novembro: Se a rua Beale falasse
    Dezembro: Um sopro de vida, Clarice Lispector.

    E você, conhece algum livro desses que irei ler? Está participando de algum outro desafio literário? Conta pra mim nos  comentários! Beijos e Boas Leituras! 

    Babel, Frederico Monteiro

    Sinopse: O que um homem comum tem a nos oferecer? E se o olhássemos por dentro e nele nos enxergássemos? Babel acompanha poucas, mas decisivas semanas de Francisco, um advogado de meia idade que não quer ouvir falar de crises. A secretária Marta que se entrega a um relacionamento virtual, a vizinha adolescente, o pai viúvo, o senhorio mudo, a faxineira Neida, o padeiro extremista, cada um a seu modo reforça a necessidade humana de convivência e afeto. De forma elegante e natural, as histórias se cruzam, umas com glórias, outras com lágrimas, como a vida de todos nós. Em meio aos infortúnios da vida cotidiana, a redenção poderá vir com o desenrolar do intrincado e rumoroso caso criminal que um simplório cliente leva ao advogado.





    Babel
    Frederico Monteiro
    294 páginas
    Editora Autografia
    3,5/5

    Babel é, antes de tudo, um livro sobre as imbricadas e complexas relações entre as pessoas e como estas relações mostram (ou não) as faces verdadeiras de quem somos. Um romance que fala de afetos e da busca incansável do ser humano por conexões verdadeiras. Apesar de ser a sua estreia no gênero romance, o autor ousa quando estrutura a sua história em dois eixos narrativos diferentes. Duas histórias que se conectam e se ampliam uma na outra. 

    De um lado temos o protagonista Francisco, um advogado modesto e já em idade madura que tem um cotidiano organizado e repetitivo e que mora na grande Babel, a cidade que aqui também é um personagem. No decorrer da história vamos conhecendo os outros personagens que compõem a rede de relações de Francisco e preenchem o seu cotidiano. 

    A secretária Marta, seus vizinhos, o padeiro, os atendentes de loja, seus clientes, as pessoas que transitam na rua...todos eles são peças de um quebra-cabeça que compõem a vida de Francisco, que compõem a babel. Do outro lado temos o outro eixo narrativo, uma história de conflito familiar encapsulado num processo criminal trazido por um dos clientes de Francisco, Salustiano. Este crime envolve violência, vingança e claro, segredos familiares escondidos a sete chaves. 

    Apesar de ser a sua estreia no romance, o autor maneja com propriedade a sua estrutura e capricha na construção dos personagens. Vemos realidade em suas falas, atitudes e sentimentos, nos solidarizamos com as suas buscas, com seus dramas. Apesar da seriedade de sua empreitada, Frederico salpica em sua história os elementos de humor a até mesmo leves traços do trágico, tendo a realidade como o amálgama que condensa tudo no que podemos chamar de Babel. 

    Uma cidade como tantas outras, que abriga a violência, a pobreza, a criminalidade e a dor, mas que é povoada por pessoas comuns e complexas, cheias de esperança e vontade de não apenas sobreviver, mas viver. 

    P.S: Resenha realizada em parceria com o blog Minha Velha Estante

    Desafios Literários 2019: Desafio Leia Mulheres



    2018 foi um ano difícil. E justamente por isso foi um ano de poucas leituras. Aconteceram algumas coisas sérias em minha vida, tive problemas de saúde que me deixaram na UTI por 4 dias e de molho por 45 dias. Mas, graças a Deus, eu sobrevivi e cá estou renovada e pronta pra começar tudo de novo. 

    Neste ano não quero me comprometer com muitos desafios e metas, quero estar "livre" também para ler coisas que surjam fora da programação e coloquei algumas metas literárias, que são, inicialmente, ler mais os gêneros que eu li pouco nos últimos anos: não-ficção, quadrinhos e poesia. 

    Como mediadora do Leia Mulheres eu já tenho uma leitura mensal durante o ano todo para dar conta, então este ano, além dos livros do Leia Mulheres Salvador eu também irei participar do #DesafioLeiaMulheres ou #leiamulheres2019. Este desafio consiste na escolha de um gênero para cada mês do ano, somente com autoras mulheres (cis ou trans). Abaixo eu mostro as categorias e falo um pouco de minhas escolhas.  


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    Janeiro: Um livro clássico: Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf.
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    Fevereiro: Uma HQ: Placas Tectônicas, Margaux Motin
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    Março: Uma escritora contemporânea nacional: Tudo pode ser roubado, Giovana Madalosso
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    Abril: Uma escritora asiática: Kitchen, Banana Yoshimoto
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    Maio: Uma ficção científica ou fantasia: Uma dobra no tempo, Madeleine L'Engle
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    Junho: Um livro de contos: No seu pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie
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    Julho: Um livro de poesia: Coral e outros poemas, Sophia de Mello Breyner Andersen
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    Agosto: Um livro de temática LGBTQ+: Todos nós adorávamos caubóis, Carol Bensimon
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    Setembro: Um livro de não- ficção: Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis
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    Outubro: Um livro de terror: A menina submersa, Caitlin Kiernan
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    Novembro: Uma escritora negra: Amor, Toni Morrison
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    Dezembro: Livre: Mulheres que correm com lobos, Clarissa Pinkola Estés

    Este livro será lido durante todo o ano, através da Leitura Compartilhada organizada pela Rita Araújo, no instagram @mulheresquecorremcomoslobos.  Irei deixar aqui para vocês o link para o vídeo onde ela explica tudinho e também as redes e o grupo do Facebook. ⠀


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    E vocês? Vão participar de algum desafio literário? Qual? Já leram ou pretendem ler algum dos livros acima? Conta pra mim!
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    Beijos e Boas Leituras! ;)

    Ele: Quando Ryan conheceu James, Elle Kennedy e Sarina Bowen

    Sinopse: James Canning nunca descobriu como perdeu seu melhor e mais próximo amigo. Quatro anos atrás, seu tatuado, destemido e impulsivo companheiro desde a infância simplesmente cortou contato. O que aconteceu na última noite daquele acampamento de verão, quando tinham apenas 18 anos, não muda uma verdade simples: Jamie sente saudade de Wes. O maior arrependimento de Ryan Wesley é ter convencido seu amigo extremamente hétero a participar de uma aposta que testou os limites da amizade deles. Agora, prestes a se enfrentarem nos times de hóquei da faculdade, ele finalmente terá a oportunidade de se desculpar. Mas, só de olhar para o seu antigo crush, Wes percebe que ainda não conseguiu superar sua paixão adolescente. Jamie esperou bastante tempo pelas respostas sobre o que aconteceu com seu relacionamento com Wes, mas, ao se reencontrarem, surgem ainda mais dúvidas. Uma noite de sexo pode estragar uma amizade? Essa e outras questões sobre si mesmos vão ter que ser respondidas quando Wesley e Jamie se veem como treinadores no mesmo acampamento de hóquei.


    Por Victor Queirós

    Que missão difícil eu recebi:  resenhar um livro intenso como Ele! A capa do livro já é persuasiva e quando começamos a leitura propriamente dita, podemos dizer com firmeza que é um baita livro e  que as autoras, Elle Kennedy e Sarina Bowen,  fizeram um ótimo trabalho.

    O livro é divido em capítulos onde ora Ryan e ora James narram os fatos e não segue diretamente uma ordem cronológica. Em alguns trechos nos são apresentados fatos do passado que ajudam a compreender como eles chegaram até aqui. Confesso que achei alguns trechos um pouco confusos e isso dificultou a   percepção de quem está falando naquele momento, porém a principal mensagem foi deixada  e eu particularmente desejo ansioso uma continuação para esta história. 

    Vamos partir agora para o que interessa: a história!  James Canning e Ryan Wesley são dois jovens bem diferentes.   James é de classe  baixa, o típico hétero gostosão, aquele que todo mundo quer, mas poucas tem, enquanto  Ryan é burguês, filhinho de papai, homossexual não  aceito pelos pais e  faz o tipo competitivo e  provocador. Eles  se conhecem ainda muito jovens, em um acampamento de hóquei.  

    A amizade entre eles na adolescência é intensa, porém uma bendita aposta feita entre os dois acaba estragando tudo. Quatro anos depois, maiores e mais maduros, Wes e Jamie, acabam por se enfrentarem em um jogo de hóquei e isso vem trazer à tona não apenas o tão indesejado encontro, mas outros sentimentos que estavam bem guardados. E é como se os quatro anos não tivessem sido o suficientes para apagar tudo o que viveram quando mais jovens.  

    Bem, eu não aconselho vocês a lerem este livro em qualquer local, eu mesmo evitava ler este livro em lugares públicos porque ele é muito excitante! Isso mesmo, ele consegue provocar o leitor, consegue fazer com que ele imagine a cena lida e nos  vem mil e uma coisas na cabeça. As autoras tem uma linguagem bem descritiva e envolvente e é bem capaz de você viajar nesta leitura. 

    Elle e Sarina conseguiriam trazer-nos uma excelente narrativa, que prende, envolve e posso dizer que Ele é  um bom livro até de olhos fechados.  Gostei bastante e chamo atenção para o final, que realmente surpreende o leitor. Recomendo a todos! 

    Sobre as autoras: 



    Elle Kennedy é uma autora best-seller canadense de romance contemporâneo e suspense romântico. Publicou livros com a Harlequin Enterprises, a New American Library, a Berkley e a Entangled Publishing. Ela recebeu seu B.A. em inglês da Universidade de York em 2005. [1] Ela teve vários títulos nas listas de bestsellers do USA Today, do New York Times e do Wall Street Journal. Sua popular série Off-Campus apareceu em várias listas de best-sellers e será lançada em mais de 20 países do mundo.




    Sarina Bowen é autora de mais de duas dúzias de romances contemporâneos e LGTB. Ela bateu mais recentemente na lista dos mais vendidos do USA Today em fevereiro, com o Brooklynaire. Sarina é bacharel em economia pela Universidade de Yale. Os livros de Sarina são publicados em uma dúzia de idiomas em quatro continentes. Em 2016, o The Romance Writers of America homenageou-a  com um prêmio RITA para o romance contemporâneo, Mid-Length.





    Enterre os seus mortos, Ana Paula Maia










    Título original: Enterre Seus Mortos
    Capa: Guilherme Xavier
    Páginas: 136
    Acabamento: Brochura
    Ano: 2018
    Editora: Companhia das Letras

    Ler Ana Paula Maia é uma experiência marcante. É um soco no estômago, é uma cacofonia, um tapa na cara. Tudo é cheio de verdade e excessivamente cru. Em sua narrativa - seca, acre e econômica em construções - as palavras se mostram e revelam a vida, com toda a sua podridão e estranhamento, esta vida que cotidianamente o mundo insiste em esconder de nós, em silenciar, em escamotear. Esta vida que também é um pouco de morte. Mas, vamos à história.

    O protagonista Edgar Wilson já chama a atenção, não apenas pelo nome, mas pela sua profissão insólita: Ele é um removedor. Trabalha em um órgão responsável por recolher os animais mortos das estradas e levá-los para um depósito, onde são triturados em um grande moedor. Seu colega mais próximo, Tomás, é um padre excomungado que distribui bênçãos aos mortos e moribundos que encontra pelo caminho. Ambos convivem com a morte diariamente. E cada um a contempla de uma forma única e diferente.

    “Edgar Wilson nunca conheceu trabalho que não estivesse ligado à morte. Sempre esteve a um passo atrás dela, que invariavelmente encontra todos os homens, de maneiras diferentes. Teme morrer porque acredita em Deus. Crer em Deus o leva a crer no inferno e em todas as suas consequências. Se não fosse isso, seria mais um corpo com as mãos sobre o peito. Não sabe que espécie de fim está reservado a ele. Mas diante dos mortos, seja humano, seja animal, ele não se mantém insensível. Não existe sentimento de desprezo maior do que abandonar um morto, deixa-lo ao relento, as aves carniceiras, à vista alheia.” 

    É justamente esta sensibilidade com relação à morte que vai colocá-lo numa situação que quebra a sua rotina tão especifica. Ao descobrir o corpo de uma mulher na mata e saber que a polícia não possui recursos para recolhe-lo (o rabecão está quebrado), ele recusa-se a deixar que aquele corpo ali exposto seja devorado e, como num oficio silencioso, decide zelar pelo que sobrou daquela mulher. Então leva o corpo para um freezer em seu depósito, clandestinamente. Enquanto espera a chegada da polícia, mais um cadáver aparece, desta vez de um homem. 

    Tomás e Edgar conhecem a morte em suas mais variadas facetas e não a temem. Antes, a respeitam e conhecem as suas fronteiras. Sabem que a morte e o sagrado andam juntos e não abrem mão, diante da situação de precariedade dos órgãos responsáveis, de dar um final respeitoso e digno àqueles cadáveres. E assim começa a jornada destes dois homens, invisibilizados em suas profissões, em suas vidas com pouca importância, mas que carregam dentro de si o mais humano que podem suportar. 

    “Tomás tem esse poder confortador diante da morte, diante das piores noticias e sabe disso. Não é um homem santo de paróquia, mas um homem de dores, um santo das estradas, disponível para Deus e para os homens e servindo da maneira que melhor sabe: vivendo no encalço da morte.” 

    A narrativa de Ana Paula é diferente de tudo o que eu já havia lido. Precisa e objetiva, seca, mas não se torna rasa ou superficial por isso. Antes, em sua economia de palavras, tece significados que margeiam o texto, que compõem um mosaico de ideias, sentires e intenções sobre a morte, a finitude, a dor e a miséria humanas. Seu narrador em terceira pessoa, onisciente e onipresente, nos presenteia com uma viagem filosófica e brutalizante sobre a realidade.

    Não há como seguir incólume a esta viagem. É preciso parar, respirar, esperar. Há horror e realidade que pulsam o tempo todo do texto, o próprio texto nos sufoca, ao mesmo tempo que nos coloca nesse lugar em que tanto evitamos estar. A nossa sociedade execra a morte e tenta maquiá-la todo o tempo. Uma morte asséptica, limpa, branca. Em Enterre os seus mortos, Ana Paula apresenta-nos uma morte que é animal, selvagem, nossa pertença, nossa vizinha, espelho nosso manchado de sangue e vísceras. Morte real e mais que cotidiana, quase banal nas estradas e nas periferias de nosso país.   

    Sobre a autora: 

    Ana Paula Maia (Nova Iguaçu, dezembro de 1977) é escritora e roteirista. Filha de professora, na adolescência, estudou teatro na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras). Mais tarde, entrou para as faculdades de Ciência da Computação e Comunicação Social. Seu primeiro romance, O habitante das falhas subterrâneas, foi publicado em 2003. Esses foram seus primeiros passos, e após a publicação do primeiro romance, segue dedicando-se, na maior parte do tempo, à literatura. É autora da trilogia A saga dos brutos, iniciada com as novelas Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros (publicadas em volume único) e concluída com o romance Carvão animal. A autora tematiza a relação do homem com o trabalho, a moldagem do caráter pelas atividades diárias e a inferiorização do homem pelo trabalho que exerce.

    Nota: 4 de 5