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  • Uma Felicidade Clandestina

    ‎"Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele."


    Faz 34 anos que eu nasci. Faz 34 anos que ela morreu. Não sei dizer ao certo se isso é coincidência. Sei apenas que encontro acalanto e repouso nas palavras de alguém que eu nunca vi em minha vida, mas que escreve como se conversasse comigo e, com isso, faz com que eu me sinta menos só, menos impertencente, neste mundo que para mim ainda é uma grande interrogação.

    Conheci Clarice Lispector tardiamente, se levada em conta a minha trajetória como leitora. Comecei a ler aos 4 anos, mas só no  início da adolescência, aos 12 anos,  é que tive o meu primeiro contato com a sua obra. E desde então, nunca mais nos separamos. Eu estava na sétima série (hoje oitavo ano) e tinha uma professora de Português chamada Maria Tereza. Ela era linda, tinha os cabelos pretos, lisos, enormes e falava bem baixinho. O olhar era enigmático, e eu queria ser aquela professora. Ficava horas perdida vendo-a  falar e a forma como as palavras que eu não conhecia saíam lindas de sua boca. Eu sempre admirei as palavras, acho que mesmo na ignorância reconhecia o grande poder contido nelas.  

    Tínhamos um livro da disciplina que se chamava Texto e Contexto, não me lembro agora o nome da autora. Era um livro feio, como eram todos os livros escolares naquela época. Ainda não entendi porque faziam questão de fazer com que os livros da escola fossem tão feios... Como em todo livro de Língua Portuguesa, existia a cada abertura de capítulo, um texto. E sabem qual era o texto que iniciava o livro? Felicidade Clandestina. Posso fechar agora os olhos e imaginá-lo: a  ilustração da menina gordinha e sardenta, a textura da página... Quando eu li este texto a primeira vez, de súbito uma pergunta saltou de minha boca em voz alta:  Mas quem é essa mulher?

    A partir daí eu e Clarice nunca mais nos separamos. Ela foi a minha grande companheira em noites sem sono, em alegrias, em choros, em interrogações, em dores de amor e nas grandes encruzilhadas da vida. Vejo nela mais que uma grande autora da Literatura Brasileira. Vejo uma mulher, uma mãe, uma impertencente. Um grande enigma por trás daqueles olhos lindos e enormes, uma sedução de bruxa, uma fragilidade de menina.

    Clarice me diz, todos os dias,  que podemos vencer a brutalidade do mundo e imprimir nele a delicadeza de nossa existência. E isso é um acalanto que não tem preço. Então, hoje, seu aniversário de 91 anos,  eu só posso mesmo é agradecer. E comemorar. Não com bolos e festas, mas de forma contida, com um sorriso no canto da boca e com uma felicidade menina, ilegal.....eternamente clandestina.






    24 comentários :

    1. Impossível não ter ao menos curiosidade de conhecer essa mulher que vc descreve tão carinhosamente.
      Clarisse nos deixou grandes histórias e as suas palavras ainda acompanham muitas pessoas poraí!
      Parabéns pelo texto! Muito lindo!
      bjO

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    2. Nossa Ilmara,
      Que texto lindo.
      AChei mt bonita a história de como surgiu a sua paixão por Clarisse.
      Eu conheço apenas alguns textos soltos da autora, nunca li nenhuma obra completa, mas minha vontade só vem aumentando nos ultimos tempos.

      Bjok

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    3. Maravilhosa homenagem a Clarisse Lispector.
      Pra falar a verdade eu nunca li nenhum livro da escritora, mas só ouço excelentes referências dos seus livros, especialmente de Ilmara que é fã de carteirinha. Il essas férias acho que vou passar na sua casa pra pegar algum emprestado...rsrsrrs
      bju!

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    4. Nossa,que linda homenagem!Realmente Clarice é muito digna dela.Amo os textos de Clarice.
      Amei o post.Linda estória!
      Bjs!
      Zilda Mara
      Cachola Literária

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    5. Que delícia de texto. Eu só tive a sorte de encontrar Clarice quando já tinha 16 anos, eu acho... =)

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    6. Clarice é sinônimo de forma, inteligência e suavidade!
      Adorei o que você colocou nessa parte: "Clarice me diz, todos os dias, que podemos vencer a brutalidade do mundo e imprimir nele a delicadeza de nossa existência".
      Uma diva literária!
      Parabéns pela postagem!

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    7. Bom dia!
      Passando apenas para divulgar o novo projeto de resenhas literárias, o O Leitor: http://oleitor2.blogspot.com/

      Se puder participar, agradeço.
      Obrigada

      Pamela

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    8. Ahhh Clarice... sempre diva...
      eu li bem pouco dela, mas fiz trabalho numa cadeira na facul e conheci um pouco da vida dela, e é forte! ela sempre foi muito forte!
      ótimo post...
      bjuu

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    9. Nossa, que lindo seu texto! Quanto carinho!
      É muito bom quando a gente tem aquele autor que mora no nosso coração =)
      Você acredita que nunca li nada dela? Vou corrigir isso em 2012, com certeza =)
      Beijos!

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    10. AAAA que post lindo!!!
      muito bonita a sua história em relação à Clarice, ela realmente é uma autora muito especial!

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    11. Clarice tinha esse poder, o de se aproximar tanto do leitor, com sua prosa simples e descomplicada, que facilmente nos identificamos e traçamos paralelos de seus textos com as nossas vidas.

      Bacana/bj*

      [se quiser fazer parceria, só deixar recadinho]

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    12. Amei e fiquei com uma vontade imensa de conheçer mas a Clarice.

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    13. Uau... que linda homenagem... eu sempre acho que quem conhece Clarice nunca a esquece.
      Ela é uma daquelas escritoras marcantes que fala da vida de todo mundo quando simplesmente, talvez, fala somente dela mesma...

      "... que cada um reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial..." (in A Hora da Estrela)

      É uma escritora que joga, brinca, bebe e come palavras e faz com que seu leitor mergulhe em águas profundas ou precipite-se pelo despenhadeiro da literatura: quem lê Clarice se encanta e o encantamento em tão profundo que não tem mais volta... a vida do leitor jamais será a mesma após Clarice...

      Qual o segredo dessa mulher? "não esquecer que para escrever não-importa-o-quê o meu material básico é a palavra." (in A Hora da estrela)

      Eu ainda digo mais Clarice: o seu segredo é ser Clarice + palavra = grandes emoções...

      Bjs, adorei o texto!
      Camila Márcia
      @camila_marcia
      http://delivroemlivro.blogspot.com/
      http://devaneiosfugazes.blogspot.com/

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    14. ameeei seu texto falando da Clarice, ela é uma autora espetacular mesmo, com uma escrita única!

      não conheço muitas obras dela, mas depois dessa declaração de amor fiquei com vontade de ler mais^^

      bjoo
      ;**

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    15. Olá Ilmara! Vc sumiu, tá fazendo falta, viu!

      Clarice é aquela coisa avassaladora....textos simples, mas de uma profundidade impressionante. Muitas vezes sinto como se ela me lesse e colocasse em palavras aquilo que eu n poderia.

      Bj, Felia Natal e excelente 2012!

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    16. Que lindo!

      A reflexão que você colocou nas suas palavras no seu relato saudoso da época que conheceu as obras da Clarice foram de uma emoção tão grande. Soaram lindas assim como a poesia no início do texto!

      Eu tive um contato ainda mais tardio com Lispector que você. O meu foi com 17 anos enquanto tudo virava o enorme turbilhão do vestibular! Nem liguei muito na época. Mas hoje gosto do jeito como ela escreve e usa as palavras.

      Feliz Natal querida!!! Eu sumo e volto rs Minha vida é uma grande loucura! Estou aproveitando o Natal e me dedicando a pilha de livros que se formou esse ano! rsrs

      Bjinhus

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    17. Que liiindo *-* A Clarice é maravilhosa, os textos dela são tão simples, e ao mesmo tempo tão incríveis, tão profundos. Uma diva literária, sem dúvidas. E o jeito tão carinhoso como você falou dela, awn, que fofo, adoreei esse seu texto, é lindo demais.

      Beijos { http://17ezesseteinvernos.blogspot.com/ }

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    18. Feliz Natal com muita saúde, paz, sucesso e amor! ;D
      bjs

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    19. Lindo , lindo, amo os textos da Clarice, sempre traz uma reflexão profunda.
      Parabens pelo seu niver, e um feliz natal para ti e sua familia.
      Bjos

      Jack
      www.mybooklit.blogspot.com

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    20. Clarice é Clarice, nunca sera substituida,
      adorei as palavras, Clarice consegue por nos livros dela o que nós pensamos e sentimos, são lindos

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    21. Sorteio de 6 marcadores do livro Pacto Secreto + 1 bloquinho personalizado no blog http://eucurtolivrosrecife.blogspot.com

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    22. Acho que é impossível alguém não gostar de Clarice, nem que seja um pouquinho!
      Adorei o post!

      como foi de natal?
      Tem post novo lá no Sook.
      Aaaah feliz ano novo!
      BjO

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    23. A habilidade que mais admiro nos autores é a capacidade de serem atemporais e mesmo assim conversar diretamente com seus leitores. Clarice será sempre uma notória escritora, não importa quanto tempo passe. Quem diz que nunca leu nada dela magnifica pessoa, realmente não sabe o que está perdendo.

      Abraços,
      http://www.vidadeleitor.com/

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    24. Texto sublime.
      Na verdade acho até complicado falar de Clarice, ela é uma mulher única. Além disso, uma escritora primorosa. É difícil alcançar o que ela alcançou... marcar mais de uma geração...
      Alguns autores se eternizam em suas obras... Clarice é uma delas!

      Abraços

      H.C.C.Reis

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